Conheci este disco há quase 25 anos, os tempos eram outros ou pelo menos me soa assim na memória. Jovem, cheio de vontade de desbravar um mundo que me parecia cheio de boa música e boas bandas para se conhecer. Anotava tudo num bloco de papel, num guardanapo, qualquer dica, qualquer disco, qualquer comentário sobre algo que nunca havia escutado. Devo ter gravado este disco em uma fita cassete, certeza que eu tenho. Eu era um tanto mais inocente e ainda acreditava que poderia existir alguém que fizesse meus olhos brilharem.

Sinceramente, eu não entendia o inglês, ainda não entendo completamente, mas me esforçava com um gigantesco dicionário Michaelis durante a madrugada silenciosa do Parque Santa Marta, em São Carlos, procurando por trás de cada frase deste disco algo que eu já podia sentir na música. Eu tinha certeza que existia uma verdade ali, uma verdade escondida.

Thunder And Consolation (LP), mesmo depois de tanto tempo, continua sendo um de meus discos prediletos, assim que ele começa a soar, sou automaticamente transportado para um lugar interior onde a natureza e suas leis implacáveis, um dia vencerão.

O grupo New Model Army começou em 1980 em Bradford, norte da Inglaterra, em meio a cena pós-punk que crescia por todo mundo. Pude ve-los uma única vez ao vivo e tenho a certeza que o vocalista e guitarrista Justin Sullivan não é apenas um roqueiro. É bastante claro em sua discografia que a busca por uma sonoridade cada vez mais particular foi obtida com grande sucesso, além, também bastante claro, de terem desenvolvido uma grande força mística através da evocação de símbolos ancestrais, fábulas, tradição oral, xamanismo, críticas político poéticas, temáticas apocalípticas e um incondicional amor pelo mundo e pela humanidade.

Nesta obra prima, cada uma dessas arestas são arquitetadas de forma sublime e com a precisão que apenas grandes magistas poderiam edificar, apontando um árduo, porém verdadeiro caminho para o despertar pessoal, mas além e através disso, conclamando este novo modelo de exército, nos dando a certeza, mesmo que apenas em quanto o disco toca, que não estamos sozinhos nessa luta contra nós mesmos.

Eu poderia tecer comentários sobre cada canção, sobre cada tensão, sobre cada verso que vem como navalha, sobre cada dedilhado de violão que pode preencher teu coração de esperança, eu poderia escrever o nome de cada músico e produtor, falar sobre a maravilhosa dedicatória de seu encarte ou do símbolo celta de sua capa, da referencia religiosa do título do álbum ou de como tudo isso de alguma forma faz muito sentido. Mas eu acredito, sinceramente, que seja melhor você mesmo descobrir isso do seu próprio modo. Boa Sorte!

Share