Não sei exatamente quando foi, não sei que tipo de substancia tinha em meu sangue. Talvez psilocibina ou LSD, lembro que na época haviam capsulas transparentes que aparentemente não tinham absolutamente nada dentro. A vida não era mais legal, os lugares não eram mais ou menos entediantes do que são hoje em dia. As pessoas mentiam para si mesmas da mesma maneira e as estradas tinham tantos buracos quanto.

Talvez tenha sido em 96, ao ouvir If Six Was Nine de Jimi Hendrix Experience eu tive uma certeza quase absoluta que estavamos vivendo um revival microcósmico do verão hippie de 69. Mas eu não me importava. A juventude é mesmo cheia destes pequenos mistérios. Olhando para aqueles dias do alto desses quase 40 anos, tudo me parece mais perto de um sonho do que de memórias, mesmo tendo certeza que nada de especial ou extraordinário estava acontecendo. A vida, em suas ondas, vem e volta de forma mágica todos os dias e nenhum segundo existencial parece ter mais importância do que outro.

O fato é que sim, conhecer e me deparar em minha adolescência, com a música, a história, a figura descabelada e a essência psicodélica de Syd Barrett causou-me um impacto tão grande que até hoje posso falar durante horas sobre detalhes, sentimentos, lembranças, capas, músicas, letras, a origem do Pink Floyd e outras inúmeras histórias que este obscuro e louco diamante conseguiu imprimir na história do rock e na minha própria trajetória pessoal.

Devo ter ouvido o álbum “The Madcap Laughs” mais vezes que uma pessoa ouve um álbum que gosta bastante, lembro-me da sequencia de suas canções como as cenas de um filme, lembro-me como se fosse uma história contada e recontada por um avô, na mesa da ceia de Natal. Dias chuvosos como os de hoje, dias ensolarados, amanheceres psicodélicos nas redondezas empoeiradas de minha cidade, lembro daquele beijo inesquecível da garota mais louca da festa, do melhor amigo naquele quarto mais enfumaçado que sauna, daquela fossa interminável, da solitude prazerosa daquele café da manha de domingo ou na audição de um mp3 precário que demorara a noite inteira para chegar.

Foi na última quinta, dia 20 de abril de 2017, em uma feira de discos de vinil de minha cidade, que me deparei finalmente com a edição brasileira deste grande clássico em sua prensagem original de 1970. Confesso que fiquei um tanto nervoso de te-lo em mãos, mal sabia que ele havia sido lançado no Brasil e realmente não esperava que um dia teria-o tão perto.

Alguns místicos autores dizem que o mundo exterior é apenas o reflexo de nosso mundo interior e em algum ponto de minha jornada eu descobri que este disco tinha um lugar guardado na prateleira de minha coleção de discos. Não esta prateleira de madeira, feita por um ótimo marceneiro, mas aquela prateleira invisível, que a gente traz dentro do peito, pertinho do coração, no ponto exato do chacra Anahata.

Durante esses mais de 20 anos em que passei apreciando, escutando e tentando decifrar o mito do louco que sorri, muitas boas pistas acabei por desvelar, mas como ensinam os alquimistas, quanto mais profundamente mergulhamos no obscuro, mais nos deparamos com o que é ainda mais obscuro.

Nas águas profundas em que Syd Barrett navega, o submarino amarelo dos Beatles pode soar como um tema para crianças. Tartarugas, polvos e pedras preciosas são as figuras mais familiares que você poderá encontrar. As correntezas emocionais pra onde Syd Barrett nos transporta não nos deixa confortável, a quase irracionalidade das metáforas ou dos trocadilhos, as contradições dos sentimentos e acontecimentos, a voz mansa, frágil, a palhetada incerta, um quase medo de existir, tudo isso, unidos ao arquétipo de trovador medieval em rota de fuga da realidade, nos amedronta, nos desafia a segura-lo, caso ele venha a cair. Mas ele não cai, ele canta e toca, se equilibrando como um malabarista bêbado, na corda bamba de um circo de beira de estrada.

Ainda nos anos 60, não satisfeito com o mapeamento das rotas interestelares e a compilação precisa de fábulas e mitos psicodélicos à serviço do despertar da criança interior, mais precisamento com o álbum de estreia de sua banda de faculdade, os Pink Floyd, o herói louco que sorri, rompe suas próprias barreiras de sanidade mental e presenteia a humanidade com a divina matéria etérea, fluido cósmico advindo dos mais distantes buracos negros da imaginação. Uma viagem sem volta para quem foi, mas um diamante onírico para quem ficou e está disposto a aprecia-lo.

É claro que sua história é bem triste e que o preço pelos seus serviços prestados foi bastante caro. É claro também que o mito do louco que sorri não me parece ser uma jornada heroica a ser reproduzida da mesma maneira na vida de qualquer um de nós, mas com o preço do pioneirismo pago, a inspiração que sua jornada nos provê é de fundamental importância em um momento tão delicado como este em que a espécie humana se encontra.

Acessar a dimensão mágica e onisciente da imaginação e registrar suas bizarras e por vezes inteligíveis experiencias, trazendo ao restante da tribo global, novidades, apontamentos e novas diretrizes para o futuro da arte e da humanidade, me parece ser algo realmente importante e louvável, algo que talvez, qualquer um de nós possa fazer. Syd Barrett deixou um legado vasto, de canções, quadros, letras, postura, inspiração e mística. Sua influencia ressoa até os dias de hoje e com toda certeza sua obra ainda contribui para o desatar de nós existenciais em muitos de nós.

Me pergunto, até quando aceitaremos as bordas da sanidade mental institucionalizada socialmente como um lugar seguro para estarmos e vivermos? É bem fácil constatar que nas mais sólidas arestas do que todos chamamos de realidade, a loucura parece ser o que de mais barato se pode comprar.

Tenho certeza que o teu louco também pode sorrir, pois sabemos que as moscas não pousam em Syd Barrett!

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