É claro que escrever sobre a volta de Twin Peaks não é uma tarefa fácil. O amplo escopo simbólico e a ressonância brutal que a série televisiva causa na ordinária realidade dos espectadores tem o poder mágico de mil furacões e descrever essas alterações no continuum espácio-temporal de forma sincera pode nos causar sérios problemas. Os mais sensíveis entre nós sabem que não é simples testemunhar um gigante como David Lynch colorindo os pixels de nossa televisão e esculpindo o ar de nossas salas com a vasta magnitude de um eterno gênio. A ressonância de sua obra em nossas vidas pode ser extremamente edificante, mas também desastrosa.

Respira-se fundo, coloca-se o cérebro para trabalhar e espera-se sair vivo de cada experiência semanal que a série proporciona. Assim como os sonhos, algumas imagens e sons ficam em nossas mentes durante semanas, como lembranças distantes, como figuras que toda vez que olhamos, desaparecem. Sabe-se que há ali na mente uma sensação, um mito, um arcano, um enigma a ser desvelado, mas quanto mais a racionalidade corre atrás de seu próprio rabo, mas distante ele parece estar.

A aldeia planetária se aglomera em fóruns online, trocam-se mensagens, pistas, interpretações e possíveis relações. Especialistas escrevem, cineastas criticam, intelectuais prospectam, pseudo jornalistas apenas tentam descrever em palavras aquilo que todo mundo já viu na tela da TV. Alguns espectadores desistem já nos primeiros episódios, outros sorriem e continuam firmes, intrigados com o que as mil facetas oníricas dessa película podem lhes dizer sobre suas próprias vidas.

Lynch ritualiza a realidade com a sabedoria de uma criança: é produtor e diretor da série e é também o chefe direto, dentro do FBI, do protagonista da série, o agente Dale Cooper. As referências místicas presentes na série são quase incalculáveis: números, nomes, letras, tikis, tótens, mitos, rituais, Zen Budismo, práticas ancestrais tibetanas, Thelema, Tarot, Magia, gólens e muito mais, deixando claro que a obra, além de não falar apenas com a racionalidade, já que também nessa dimensão é possível de alguma forma tecer uma trama, mesmo que não-linear de acontecimentos, causas e efeitos, fala simbolicamente com camadas mentais mais profundas, como o inconsciente pessoal ou coletivo e, porque não, até com as mais profundas camadas da própria espiritualidade.

Quem acompanha minimamente sua carreira e sua biografia, sabe das ligações de Lynch com o místico e o esotérico. Seu livro, lançado inclusive no Brasil e intitulado Em águas profundas apresenta técnicas de meditação voltadas à produção criativa, usando a metáfora do mergulho mental em busca de grandes peixes criativos nas profundezas de nossas consciências.

Como nos melhores rituais, a música tem um papel fundamental dentro do universo de Twin Peaks, sendo o fio condutor durante as cenas, contudo, ela também aparece "materializada" num espaço sagrado, o The Roadhouse, também conhecido informalmente por Bang Bang Bar. Ali é onde a racionalidade parece enfim poder descansar e as emoções podem aflorar sem a preocupação de saber onde ou porque está-se indo em frente.

Ao ligar sua televisão, iniciar o Netflix e selecionar a capa da série Twin Peaks, você está assinando uma espécie de "Terms and Conditions", dando a David Lynch e sua equipe a confiança de participar de um ritual pós-moderno no qual não se sabe ao que se será exposto. Cenas macabras se misturam a dramas românticos, aventura e suspense se mesclam com comédia do absurdo, contos sobrenaturais com investigadores noir, super-heróis com animais selvagens, madeira, fórmica, veludo, concreto, asfalto, grandes cidades, florestas e montanhas gêmeas, filme B e superprodução, tudo junto e miscigenado..

Uma rápida procura pela internet e você saberá que uma Rosa Azul, nome da operação secreta do FBI dirigida por Gordon Cole, o personagem responsável por registrar e investigar uma entidade sobrenatural, não pode ser encontrada na natureza e que para criá-la são necessários artifícios científicos ou manipulações genéticas para se obter tal resultado.

A experiência de Twin Peaks parece-me ser a experiência de criar em nós, espectadores, a impossível, misteriosa, jovial, desejada e imortal Rosa Azul, através da iniciação em uma seita secreta, no qual os graus iniciáticos são aplicados por um mestre que, com amor e paixão, pode transformar o defunto messias David Bowie em um oráculo em forma de bule gigante e desafiar, com fogo e fumaça, não apenas tua inteligência - espectador - a enfrentar um grande quebra cabeças, mas também tua coragem para suportar a beleza e a fealdade de tua própria alma investigando, descobrindo e tentando evitar que qualquer um mate dentro de você, o que sobrou de Laura Palmer.


Marky Wildstone
Revisão: Josette Monzani

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